Escritos · 2012–2020 · 47 posts

Geograficidades Amazônicas

escritos reunidos de blogs autorais (2012–2020) e voltado para geo-rasuras (e não só geo-grafias) da experiência amazônica

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Arquivo unificado dos blogs Espacialidade e Transamazônica. Todos os textos são de autoria de Wallace Wagner Rodrigues Pantoja, publicados entre 2012 e 2020.
Transamazônica

(sem título)

O QUE NÃO ESTÁ NO MAPA - SILENCIAMENTO POLÍTICO DA VIDA EM CAMPO
Harley (1988) já havia descoberto que os mapas podem ser veículos de poder, reafirmação pela representação - sempre uma externalidade - daquilo que é-como-está no real. O poder de produzir e espalhar mapas provoca, inclusive, um aprendizado alienígena que se naturaliza pela colonização de como dever ser o GEOCORPO DA NAÇÃO, como Winichakul (1994) chama o território em seu livro seminal sobre a importância da EDUCAÇÃO CARTOGRÁFICA para estruturação de um Sri Lanka dominado colonialmente, não só por seus limites, mas pelas novas representações de mundo moderno que se infiltraram na mentalidade dos que ali vivem.
É curioso que em Anapu (PA-Brasil), o único mapa visivelmente disponível em prédios públicos fique afixado na prefeitura - imitação de sede de fazenda, como me comunicou o professor Dieyson Almeida - e mais curioso ainda o próprio mapa:
"[...] a representação do espaço do campo desaparece em favor da cidade no mapa “Município de Anapu”, no prédio da prefeitura que aparece como sede de fazenda, denotando a trama geossimbólica na afirmação do poder de classe. E os anúncios “as melhores empresas da cidade” reafirmam esse poder, colocando para escanteio o “preserve o meio ambiente” na base do mapa e capturando a área onde deveria aparecer o campo, revelando o fracasso sobre o que se decide ver em um mapa público magicamente preenchido pelo sistema de propaganda (WILLAMS, 2011).
"Uma PROJEÇÃO (projeto gráfico de adequação do real ao representacional) que inscreve o plano emoldurado por quem paga o produto cartográfico urbano-centrado em um apagamento político de espaços de outros sujeitos e da maior parte do município. Essa presença reiterada do urbano no município cuja maioria da população vive no rural não é apenas irônica, revela fraturas de representações do campo com efeitos diversos no imaginário geográfico, fraturas que se tornam inexistência pela escolarização e pela indisponibilidade dos conteúdos e materiais aos professores" (PANTOJA, 2020).
Estas e outras questões ligadas ao sentido fenomenológico de PROJEÇÃO CARTOGRÁFICA, exploro no meu recente artigo publicado pelo Boletim de Geografia de Maringá. Seguem link de acesso: https://www.academia.edu/44435789/Educa%C3%A7%C3%A3o_geocartogr%C3%A1fica_e_tensibilidade_narrativa_criando_proje%C3%A7%C3%B5es_vicinais_Pacaj%C3%A1_Anapu_Par%C3%A1_Brasil_Geocartographic_education_and_narrative_tensibility_creating_sideroads_projetions_Pacaj%C3%A1_Anapu_PA_Brasil_
TEXTOS CITADOS:
HARLEY, B. Mapas, saber e poder, Confins [Online], 5 | 2009, posto online em 24 avril 2009.
URL : http://confins.revues.org/index5724.html
PANTOJA, W. W. R. Transamazônica: geocartografia da (in)existência entrelugares. 2018. 449 f., il. Tese (Doutorado em Geografia)—Universidade de Brasília, Brasília, 2018.
WILLIAMS, R. Culture and society, 1780-1950. Columbia University Press, 1983.
WINICHAKUL, T. Siam Mapped: A History of the Geo-body of a Nation. University of Hawaii Press, 1997.

Transamazônica

À Beira da Faixa (Documentário)














Documentário desenvolvido em parceria do IFPA-Campus Tucuruí, Governo do Estado do Pará e financiado pela Fundação Carlos Chagas via Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP). A partir da experiência de formação de professores de Pacajá e Anapu, no âmbito do Programa Nacional de Formação de Professores (PARFOR).




Ficha Técnica Coordenação do Projeto e Direção: Wallace Pantoja Fotografia: Mateus Moura e Cleyson Silva CInegrafistas: Mateus Moura e Cleison Silva Som Direto: Guto Mafra Iluminação: Jefferson Nascimento Imagens de Arquivo: Toninho Doido (cinegrafista da prefeitura de Pacajá). Montagem: Mateus Moura e Cleison Silva Filmagens realizadas entre Março e Abril de 2012, nas vicinais de Portel, (Pacajá) Ladeira da Velha (Pacajá), Santana (Anapu) e beira da Transamazônica entre Pacajá e A|ltamira. Pesquisadores envolvidos: Alex Abreu, Asmavette Demétrio, Dieyson da Conceição e Marcélia Araújo. Colaboração da pesquisa e roteiro: Turma de Geografia - Licenciatura (IFPA - Campus Tucuruí, Polo Pacajá). Agradecemos todas as famílias que, entre Pacajá e Anapu, desafiaram com suas vozes, nossa compreensão do lugar transamazônico.

Transamazônica

(sem título)


Boaventura de Souza Santos, o guru decolonial, faz uma análise bem interessante - embora algo descontextualizada e pouco praxiológica - para nossa região: a teologia da liberdade, calcada no Cristo como lutador dos pobres e oprimidos foi sistematicamente substituída pela teologia da prosperidade dos evangélicos, calcada na ideia de que os ganhos financeiros são as verdadeiras bençãos - os ricos e não os pobres herdarão o reino dos céus.

O impacto disto é evidente no espaço amazônico, haja vista que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) viabilizam um processo orgânico de mobilização popular, sobretudo no campo, tendo em vista um diálogo (não sem fortes contradições) entre catolicismo, marxismo e transformação social.

Nas últimas décadas, o panorama vem mudando substancialmente. A entrada das igrejas evangélicas tem mudado a face dos assentamentos de reforma agrária, bem como orientado a vontade de domínio lucrativo - agora abençoado - dos donos do agronegócio regional. E, de fato, se desenha uma distinção entre vocação popular da teologia da libertação e vocação egoísta da teologia da prosperidade.

A face mais perversa e caricata desta última é a bancada da Bíblia no Congresso Nacional, renovada e estufada que fecha os olhos para morte de indígenas, agricultores familiares, sem-terra, quilombolas (todos merecedores do inferno, segundo o que está implícito na orientação teológica), enquanto agarra as mãos da bancada da bala (militares e policiais) e do boi (agronegócio) num processo de monocultivo da terra, do corpo e do pensamento.

Temos então diversos desdobramentos geográficos violentos: a) empurrão (e extermínio) dos indígenas para fronteira norte; b) perseguição e "deslegitimação pelo peso em arroba" das comunidades quilombolas; c) escalada do desmatamento - que bateu recordes no governo Temer; d) aumento da privatização da terra em detrimento dos título coletivos ou assentamentos de reforma agrária (reduzidos drasticamente nos últimos anos - com perspectiva de absoluto achatamento com a criminalização de movimentos sociais); e) disputa por fiéis dizimistas mais do que agregação coletiva tendo em vista enfrentamentos socais e políticos locais; f) mapa adensado dos jurados de morte em toda a Amazônia, normalmente lideranças religiosas católicas e populares.

Porém, ainda que haja respaldo e concorde em linhas gerais com o argumento de Boaventura, me parece pouco praxiológico. Em termos amazônicos, as organizações de base se articulam às igrejas, mesmo evangélicas, para estabelecer posições de luta nos assentamentos; bem como um conjunto de lideranças (pastoras e pastores) oriundos da luta pela terra rearticulam sua pregação muito mais para calibrar ações em favor de melhorias populares do que em função de um ganho individual estrito.

Em todo caso, há um gosto de abandono dos que trabalham para os outros e não prosperam, criação de uma atmosfera de aversão da luta popular pelo Cristo da teologia da prosperidade evangélica, ao mesmo tempo que o Cristo dos pobres libertário foi sepultado por João Paulo II (Concílio Vatiano II) - e, ainda sim, renasce em experiências vivas nos rinções da amazônia, seja entre católicos ou evangélicos.

Transamazônica

Cabra marcado para morrer

O documentário "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho. Continua as filmagens em modo de documentário do filme que seria feito em colaboração dos trabalhadores camponeses e da direção da Liga Camponesa do Nordeste - remomorando o assissinato da liderança que ousou questionar o latifúndio e a ordem desigual naturalizada. Criminalizados, perseguidos e destruídos pelo Ditadura Civil-Militar de 1964 como "comunistas" e "terroristas", o filme permaneceu inacabado, gritando a história de luta pela terra e revolta contra a miséria que assolava - e ainda assola - o Brasil profundo.










VAMOS ESTUDAR NOSSA HISTÓRIA PARA NÃO ASSASSINAR NOSSO FUTURO

Transamazônica

o homem revoltado

o homem revoltado: Ele pode ser um amigo, eu ou você. Tem visão algo progressista, não se percebe como machista - bem ao contrário - é a favor da vida de todas as mulheres. Porém, não perde um minuto em usar a morte de uma contra a organização e engajamento de tantas outras, que lutam diariamente frente a violência pessoal, estrutural e ainda precisam lidar com machos que lançam na lama toda uma rede de auto-afirmação coletiva: o universalista desengajado.

Transamazônica

Quem dá conta dessa formação como professor(a)?







Conversação sobre a História do Lugar - Assentamento Rio Cururuí, Núcleo B, Pacajá-PA. Foto: Professora Angela Nunes









Um levantamento breve e nada exaustivo pode revelar o óbvio inconsequente: há tantas prescrições sobre o que é importante conhecer direcionadas aos professores e professoras da educação básica que, neste rosário de prescrições - menos metodológica e muito mais abstracionistas em sua maioria - imagino não existir humano que dê conta de uma formação para tudo que inventam que devemos ter de saber e fazer!

Como professor da educação básica e do ensino superior sei muito bem o quanto a posição assimétrica de poder, prestígio e condições de trabalho podem nublar nossa visão "de cima" sobre a Educação Básica, com suas 200 horas mínimas (deslocando-se entre várias escolas), salas lotadas e sem infraestrutura em sua maioria (pensem nas tardes escaldantes amazônicas), sem outros espaços como biblioteca ou sala de informática ou tempo para estudo e participação em eventos dialógicos, não raro sem merenda e no limite da violência explosiva que invade, cada vez mais, as entranhas da escola no Brasil que está involuindo em termos de políticas públicas à educação.

E ainda temos que lidar com a multiplicação de formulações que colocam, educadamente - pela linguagem impessoal e não fulanizada da ciência - o que fazemos errado e deveríamos acertar!

Normalmente publicações oriundas do ensino superior onde a metodologia e o exercício de práticas educativas chamativas para além do "vamos ler e discutir o texto de hoje" não parece oferecer das melhores paisagens ao processo de "construção de conceitos" (termo que, assim como formação de cidadão crítico, começa a me dar urticária, por seu uso esvaziado em não poucos textos, como se o anúncio protocolar resolvesse previamente a questão).

Por que estes "gestores das incapacidades alheias" não olham para o próprio umbigo antes de acusar as/os professores/as da educação básica de "tradicionais" e "descontextualizados da realidade vivida"?

Por isso, cada vez mais, me interesso pelo que está já sendo feito, do jeito que está sendo feito, na ponta, aos "trancos e barrancos", e nesse aí, sempre como aprendente e junto com, suscitar extrapolações, reticularidades, co-criações, visibilidades mútuas, trocas corpóreas experienciadas, maturações comprometidas no lugar em que acontecem - inclusive em sua dimensão política combativa da precarização geral e desvalorização seletiva dos/das professores/as.



Caminhada Geocartográfica - Assentamento Rio Cururuí, entre os núcleos B e D, Pacajá-PA. Foto: Professora Angela Nunes


Se há alguma prescrição a se fazer - e quase sempre é exigido uma na sessão "considerações finais e recomendações" - é a comunicação deste tucupí não totalizado que se faz na contingência e na estruturação de processos de aprendizagem. Onde o/a professor/a de formação ruim, desvalorizado/a financeiramente, distante das centralidades urbanas ou nas periferias centrais, adoecida/o pela auto-estima profissional achatada, em escolas que mal se sustentam em paredes e buracos; este mesmo/a professor/a e seus estudantes exibem uma vontade indomável e fazem ver realizações não mapeadas, não publicizadas, do conhecimento marinado na labuta diária, no encontro proximal, no foco das problemáticas miúdas com grande potencial transgressor, inclusive para repensar os limites do pensável geocartográfico.



Conversação sobre a História do Lugar - Assentamento Rio Cururuí, Núcleo B, Pacajá-PA. Foto: Professora Angela Nunes


É aí-junto-com que fica muito evidente: não há ser humano viável no planetário de exigências de formação, nem mesmo os que exigem formar a todos nós e, na ânsia de comunicar a generalização útil à educação nacional, transformam estudantes e professores de corpos presentes em médias ausentes para nossas elucubrações descorporificadas.

É preciso deslocar e desdobrar nosso foco para um onde projetando-se tenso e cambiante, mas ainda assim projeção! Caso contrário a projeção ficará atolada em prescrições que não enxergam as singularizações irredutíveis e suas narrativas suadas pelos caminhos da vida não prescrita.

Transamazônica

A doce (e poderosa) ilusão da simetria espacial




A simetria sedutora - reflexo condicionante de maneiras de ver o espaço transamazônico.


Quando estudamos a "área" paraense da Transamazônica, seja na perspectiva dos planos de Estado, da imagem satelital - base da cartografia hoje - e em muitas pesquisas sobre a espacialidade sub-regional, uma simetria se evidencia com força explicativa apriorística: o modelo espinha-de-peixe. A transparência deste modelo não é apenas sedutora, ela impõe "maneiras certas de ver", sobretudo onde ocorreram Projetos Integrados de Colonização (PICs), como Marabá e Altamira, ou seu entorno geográfico de cotidiano menos colonizado.

A espinha-de-peixe impõe-se como marca e matriz imagética: produtiva de imagens repetitivas e atualizadas, encaminhando interpretações cujo eixo central é: a) o fracasso do modelo desenvolvimentista de "urbanismo rural"; b) imposto pela Ditadura Civil-Militar como caminho de exploração em escala planetária dos minérios e madeiras; c) financiando mega-empreendimentos pecuários/especulativos que, junto à migração massiva ao interior da Amazônia decretaram sua degradação socioambiental.



O poder satelital de estabelecimento da verdade ao nível topográfico desde uma escala privilegiada em detrimento à outras. Imagem: www.oeco.org.br


Ao que parece, para superar o fracasso insuperável foi necessário esquecê-lo ou relembrá-lo (criticamente) na imagem geográfica congelada da espinha-de-peixe que sintetiza a Transamazônica.

A simetria entre plano-projeto-olhar parece fora de contestação, é o quadro cartográfico de onde parte a maioria das interpretações sobre a "Região da Transamazônica" contemporânea. O problema é que esta visão tem um privilégio escalar em relação a outras, sobretudo mais lugarizadas; a simbologia que veicula esvazia símbolos não apenas de significados, mas de emoções, prestando-se à repetições explicativas que sedimentam uma "projeção" sobre o espaço, mais como quadro condicionante-condicionado do que intensidade entre coexistências que são aberturas ao possível e ao pensável.

Modo adocicado - mesmo quando crítico - de "fazer-ver", replicando a visão de cima e de longe; emparedando, petrificando, medusando a realidade geográfica contemporânea para fins de uma síntese parcial repetitiva.



Mapa mental de estudante da Escola Santa Júlia, Vicinal Santana, Anapu-Pa


Enquanto isso, em outra relação escalar - que não é menor, e sim original porque proximal - a espinha-de-peixe deixa de ser o que é para nos convidar às suas entranhas, reticularidades, de varetinhas à varadouros, encontros com rios, amplitudes topográficas muito mais ressonantes do que a extensão local nos faria supor, dobras e entreplanos in-visíveis.

Convite ao repensar da cartografia: projeção-escala-simbologia, na compreensão da Transamazônica, onde mais do que a verdade satelital possamos fazer entrar no diálogo a situação de indivíduos/coletivos em sua imaginação objetiva-subjetiva (fundamento e abertura geográfica), reconfigurando o lugar do fracasso/paralisado/esquecível como o lugar de projetos impossíveis.

Transamazônica

Escola como lugar da reunião vicinal


Atividade desenvolvida pela professora Terezinha Silva e estudantes da Escola Nossa Senhora dos Remédios, da Vicinal Ladeira da Velha, Pacajá-PA. Quando a beira performa sua representação política, expressando o conjunto de problemas cotidianos, contingentes e estruturais das famílias em campo: da educação à ação impositiva de organismos federais.

Os textos foram elaborados pelos estudantes com orientação da professora e consulta às mães.








As mulheres assumem o protagonismo e posições que de fora são tidas como soluções viáveis - como as multas do IBAMA para deter o desmatamento regional -, de dentro revelam as complicadas tramas que as multas impostas aos agricultores familiares não revelam: a ausência completa de política agrícola alternativa para o lugar, mas também a persistência ainda hoje do padrão antes amplamente incentivado pelo Estado: o desmatamento como forma base de produção, imposição do INCRA aos colonos nos anos de 1970.

A ironia articula modos práticos e seletivos de atuação municipal - atendendo seletivamente os grupos entre crise fiscal e necessidade de "mostrar serviço" - e a presença da comunidade na apresentação reforçam a importância seminal da escola não só como um prédio para educação formal, mas ambiente da reunião da vizinhança-comunidade, instituindo assim, lugar.


Transamazônica

Quando o dedo toca no mapa


Ela desdobrou o mapa no chão vicinal, tomado do INCRA para ter ideia geral da distribuição dos núcleos no Assentamento. Uma série de linhas retas recortando um campo branco, na borda linhas sinuosas indicando rios: Pacajá ali, acolá o Arataú. Dentro destes limites aos por fora do lugar como eu era um labirinto incompreensível. Então, ela tocou com seu indicador e algo aconteceu: fenômeno. O aparecer que num fluxo une tocador e o tocado, veda a separabilidade sujeito e objeto, destitui uma plotagem feita em corredores distantes de sua fria métrica pelo poder das mãos que exige a atenção quando toca e diz - aqui.

Retomando memórias perdidas, recontando situações vividas, indicando com rigor quem e onde, trazendo o calor da luta desesperada por um chão, nomeando a terra arrasada por madeireiros, invocando coexistências e a espussura não simétrica, mas que inundava a simetria do papel com vida e morte. O papel grosso transmutava na porosidade do lugar, cambiante, precário, mas único possível criado (mais que produzido) nesta fricção vicinal.

O dedo toca a linha plana de um mapa desdobrado no chão, o dedo também toca o chão através do mapa – chão que é a concretude sobre a qual está a representação dele próprio e neste toque dos dois solos se projeta a fala que reativa a memória do que se vive, pela terra, jorro de imagens vivas lugarizáveis e nunca mapeadas naquele mapa, a não ser neste breve encontro, distendido, dolorido:

“Aqui é o Jota (J), aonde houve a chacina, aonde mataram [...] oito, aqui no J [Núcleo, hoje vila J, Assentamento Rio Cururuí, Pacajá – PA”.

Transamazônica

Varetinha, Vicinal, Varadouro




Travessias - Vicinal do Adão, Pacajá - PA


Nos cinco anos de encontro com os vicinais, eu me escolhi - de um geógrafo sonhando em teorizar o espaço tendo modelos heróicos da ciência, passei à posição de abertura ao tangível do lugar como condição para carne do mundo, sem maiores pretensões que não sejam dizer-é e a atitude da liberação de sentidos subjetivos como fazer-saber que rejeita hierarquias entre os que partilham. As vicinais transamazônicas - seus professores, seus estudantes, a vida pulsando nesta fricção geográfica que não se reduz ao espaço e menos ainda ao território, foram "o onde existencial" do entrelaçamento que vai continuar depois da tese. É preciso abandoná-la e cumprir o ritual acadêmico de titulação quando se sabe que não será possível, felizmente, terminá-la.




Imagem do ato de imaginar uma fotografia do céu.

PDS Esperança, Anapu - PA.



O documento escrito não pode ser - embora, normalmente o seja - o centro circulante da vida acadêmica. É preciso tornar o mesmo outro do outro para que a diferença da diferença no mundo não esgote, não sedimente na palavra douta que exige silêncio de todos. Sem moralismo direcionado à espantalhos é preciso admitir o fracasso, o retumbante fracasso de fazer o que parece tanto e tanto ser muito menos do que se deveria fazer.



Horizontes abertos, Vicinal Ladeira da Velha, Pacajá - PA


Na varetinha, o primeiro caminho, vacilante, estreito, fechando-se logo atrás de sua abertura, é sempre o início de uma vida vicinal - cuja distância não significa só tempo e espaço, mas distendimento do corpo, extenuação de si, silêncio saturado e ausência de horizonte, princípio que não se confunde com o Nada.

A vicinal então se avoluma no trânsito, nem aqui nem lá, vazando de lama na capoeira, interiorização infinita no estreitamento do horizonte, do limiar.



Mapa Mental de Estudantes da

Vicinal Santana, Anapu - PA


A presença da vicinal anuncia lançamento coletivo ao projeto de vida em campo, primeiro na varetinha e à picada, depois no engajamento corpóreo individual e coletivo - jamais redutíveis um ao outro, não simétricos e sempre imbricados - que tem de fracassar diante das condições e maquinações do mundo do sistema, não a foucaulteana "estratégia sem estrategista", mas intencionalidade difusa que se adensa sobre o corpo em campo vicinal para decretar sua inexistência por múltiplos deslocamentos: geohistóricos, geocartográficos, geobiográficos, até a morte. Muitos e muitas morreram neste período e tantos outros coletivos passaram a inexistir na ordem das coexistências públicas (múltiplas?).

E, no entanto, os vicinais se encorpam, lançam sua voz que é feita de toque e proximidade além da projeção cartográfica, além de representações sistemáticas, mesmo as que do seu lado pretendem aplainá-los em categorias politicamente totalizáveis.

O outro é diferença da diferença - o não, não é o avesso simétrico do sim, é eco da inexistência que, na fratura do geográfico comum realiza um salto: reXiste.



Reunião com a Professora Angela, Núcleo B,

Assentamento Rio Cururuí, Pacajá




Professora Terezinha - Mapa Artesanal

Ladeira da Velha, Pacajá


Salto que se a visão de sobrevoo não prende, é porque só o olhar enfiado, à distância de um toque, não medusado, tem este poder ambíguo de criar aparecimento, numa palavra: fenômeno. Não mais como vicinal, e sim conexão entrelugares, atravessamento transbordante, hemorragia de vida que coagula aqui e ali, criando uma rede que é memória e projeto, ancestral e fictícia - e aí mora sua potência encarnada - a ficção é condição para atravessamento narrativo na geocartografia regional: o Varadouro. É para este "caminho de caminhos, nó de trajetórias corpóreas" que almejo seguir, adiante já vão mestras como Ângela Nunes e Teresinha de Jesus, mulheres-em-campo, mães e professoras, varando o impossível e o fracasso para educar e educar-se, à beira, à borda, em situação-limite. Varadouro é a travessia que conecta rio e estrada no interior das geograficidades amazônicas, fazer-se Varadouro é escolha e destino.

Transamazônica

Geografias da Infância Amazônica





Crianças no Campinho. Autoria: Alex Cruz, Núcleo-Vila A, Cururuí, Pacajá, PA, 2015.

As brincadeiras e maneiras de construí-las constituem a geografia da infância, como propõe, Lopes e Vasconcellos (2006). Esta geografia recorta a fisicalidade do espaço - praça, vicinal, rua, rio, mata, deserto - produzindo o tempo da brincadeira e um ambiente que se repete-na-diferencialidade - exercício criativo do lugar efêmero que não é resultante só do que "se quer", mas o que "se pode", portanto, depende das condições gerais e imediatas deste acontecimento: "o onde-como brincar".




Geografização fugídia, intermitente, não possuindo limite claro, tem mais a ver com intensidades de partilha e sentido subjetivo que se enraíza e sensibiliza. Uma expressão de existir como criança em contexto cultural, econômico e político, mas diferencial, inscrevendo certa autonomia das crianças no seu ato de ser geográfico.




Territórios do Brincar. Still do Filme dirigido por Renata Meirelles e Davi Reeks




Nas vicinais temos as subidas nas árvores, os piques nos quintais, as descidas das ladeiras, corridas até o rio, o campo de terra para bola, as encenações e versos de repente no descasque da mandioca. Em comunidades ribeirinhas há uma interpenetração de variáveis ecológicas e sazonais no brincar de conduzir canoa, fazer gaiola, a exploração do ambiente interpenetram socioespacialização e ludicidade, criando espaços internos, externos e de transição apropriáveis nas brincadeiras, com certa diferenciação entre gêneros (Reis, et. all, 2012).






Brincadeira de Criança, Melgaço, Expedição Guarycuru - Viviane M. Barreto, 2013. Fonte: O Estadão.


E assim, como insinua Teixeira e Alves (2008), é construído um brincar de aprender ou um aprender brincando, como na passagem:

"Ros [conversava com o irmão mais novo, Pat de 4 anos]: . . . Esse açaí parece que não está bom, acho que ninguém vai querer comprar... Tá muito duro.

Pat: Tá não. Tá gostoso.

Ros: Então, vamos levar lá pro porto pra vender [em seguida, Ros carregou a rasa. Pat correu e segurou de um lado do cesto. As duas crianças se dirigiram até uma pequena tábua, localizada mais adiante no terreiro]. Aqui é Belém. Quem quer comprar açaí? [Dirige-se ao irmão mais novo e diz] Tu és o comprador, vem comprar.

Pat: Tá bom. Me dá um pouco.

Ros: Cadê o dinheiro?

Pat: Não tenho.

Ros: Pega umas folhinhas ali e faz-de-conta que é dinheiro [Pat colheu umas folhas no quintal e deu para Ros, que colocou um pouco de pedra [frutos do açaí] dentro de um copo descartável, encontrado no quintal e deu para Pat]" (TEIXEIRA; ALVES, 2008, p. 380).




Parquinho. Fonte: http://www.odemocrata.com.br






É interessante como a metrópole, ao demarcar separações visíveis-invisíveis, repercute nesta geografia de infância, separando, homogeneizando, delimitando, até mesmo prescrevendo como se deve brincar - os plays dos condomínio exclusivos, o videogame individual e seus jogos online do grupinho, a praça destinada a certas classes e não outras, as quadras de bairros elitizados e das periferias, baixadas e favelas revelam fraturas não só no espaço relativo-relacional, mas simbólico-emocional, configurando sentidos que introduzem nas brincadeiras o componente classista, racista e até sexista (que não é exclusivo da metrópole), esgarçando o tecido da própria convivência possível já em sua costura: a subjetividade e a lugaridade infantil.




Porém, este esgarçamento é a condição para novos entrelaços, nessa separação de pretensos homogêneos reprodutíveis pode surgir um intervalo para colisão gostosa das diferenças em novo, aprendizados mútuos e aberturas possíveis - talvez resíduos criados no entrelaçamento de infâncias ainda não formatadas pelo domínio adulto.



Referências de percurso (além de umas pitadas de Merleau-Ponty e Lefebvre):








LOPES, Jader Janer Moreira; VASCONCELLOS, Tânia de. Geografia da infância: territorialidades infantis. Currículo sem fronteiras, v. 6, n. 1, p. 103-127, 2006. Disponível em: http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/educacaopublica/article/view/915.




REIS, Daniela Castro dos; MONTEIRO, Eline Freire; PONTES, Fernando Augusto Ramos e SILVA, Simone Souza da Costa.Brincadeiras em uma comunidade ribeirinha amazônica. Psicol. teor. prat.[online]. 2012, vol.14, n.3, pp. 48-61. ISSN 1516-3687.




TEIXEIRA, Sônia Regina dos Santos and ALVES, José Moysés.O contexto das brincadeiras das crianças ribeirinhas da Ilha do Combu. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2008, vol.21, n.3, pp.374-382. ISSN 0102-7972. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722008000300005.

Transamazônica

TRANS-AMAZÔNIA- fragmentos desencontrados (Ditadura Civil-Militar e indígenas na abertura da estrada)

TRANS-AMAZÔNIA- fragmentos desencontrados (Ditadura Civil-Militar e indígenas na abertura da estrada)




A atuação da FUNAI na abertura da Transamazônica foi desastrosa ou quando muito, impotente. Na fala do cacique da aldeia Bela Vista, Manoel Duca, de 52 anos, afirma que "os tenharim tinham muito medo dos trabalhadores da rodovia: 'Só tinham três que representavam o povo, e o resto [estava] escondido no mato'. Afirma que 'a empresa pegou a gente para fazer desmatação', dizendo 'olha aqui o machado, índio: vai abrir a estrada!' Derrubavam as árvores até mesmo dentro d'água, tendo trabalhado um ano de graça 'no cabo do machado' até a localidade Matamata, à margem do rio Aripuanã. O empregados das empreiteiras apenas diziam para os índios nas aldeias: 'Sai da frente!' Comiam pouco entre os turnos de trabalho: 'Eles mandavam em nós que nem preso; quatorze pessoas. A alimentação cultural, as frutas que tinham na frente [do traçado da estrada], nós perdemos. Ficaram com as redinhas de algodão que fazíamos naquele tempo' (COUTINHO, Extraído do “Relatório de avaliação atual dos tenharim (kawahiwa) do rio Marmelos, Estado do Amazonas).




https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiGosaZR6lb8VqtNqp0_X6XCuzgW7Fg2pMuv8Sb9ZKgc-w0ey13eXdmmARsTgdT6m0vrdBYg3GIYp8zQj0vnxnXjJVURWNuWmWso3S0yroXj2T8Qr7sh7uIRmWUYXlAnZ3kg4yHB3mkK7A/s1600/parakana_8.jpg





Porém, em um dos livros de maior circulação no período e que fundamentou trabalhos científicos e didáticos lemos uma outra história, escrita pelos que escreveram a geohistória transamazônica:



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"Felizmente, até hoje [1973] as coisas ocorreram melhor que se esperava. Dois incidentes, sem maior importância, todavia, podem ser lembrados: o ocorrido com os índios Parakanan, quando uma turma de topografia de uma fiema empreiteira, no Sudeste do Pará, foi abordada e alguns homens foram despojados de seus instrumentos de trabalho e roupas; e o sucedido com os índios Krain-a-kore, que foram pouco amistosos com um cabo e um soldado do 9º BEC, em um encontro ocasional, ao Norte do Mato Grosso (REBELO, 1973, p. 170).

Segundo o General Frederico Rondon 'esclareceu': "que a assimilação pelos aborígenes dos nossos padrões de cultura não significaria necesariamente uma escravização ao homem civilizado, já que nós não participamos do segregacionismo racial existente em outros países, principalmente nos Estados Unidos durante a colonização de seu território" (REBELO, p. 170).

"A política indigenista integracionista via na conversão do índio em trabalhador um processo considerado 'civilizatório' nos termos do regime. Em 1972, o superintendente da Funai na época, o general Ismarth de Araújo, explicou ao jornal O Estado de S. Paulo que 'índio integrado é aquele que se converte em mão de obra' e que essa integração se daria de forma 'lenta e harmoniosa'. (memóriadaditadura.org.br)

E assim a história transamazônica foi feita, destituindo e destruindo a geobiografias dos lugares.



O vídeo institucional da ditadura militar sepulta as vidas debaixo da "integração nacional".

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Escala Geográfica e Subjetividade Vicinal





A escala na geografia depende de um apriorismo lógico que transforma a relação em média - gráfica, numérica - ou em círculos concêntricos com ordem de prioridades: lugares dentro de regiões; territórios dentro e espaços-mundo. Estranhamente a escala é ignorada como construção vivida. Não se deveria negar o perto e o distante, o global e local, mas qual a corporeidade - mais do que ponto de vista - de quem vive estas escalas?







Escala "Fenomenológica" Transamazônica (modelo simplificado)





Uma geografia que não aborde fenomenologicamente a escala perde de vista este chão na qual nos situamos - e de onde nossa situação é percebida e, não raro, construída/imaginada - mesmo que, evidentemente, haja determinações distantes sobre nossa situação, quando pensamos a escala existencialmente o axioma numérico se torna uma derivação e não um a priori, bem como passamos a relacionar ambiente com subjetividade em um sentido que é pessoal, mas também público e político.




Afinal, a escala de uma vicinal é absolutamente diferente para quem trafega por ela em período de chuva ou de seca, para quem está chegando pela primeira vez ou fugindo para salvar a vida. De modo que não é apenas um espaço relativo (posições perspectivas, meios diferentes de percurso) ou relacional (científico oposto ao estético, segundo Harvey, imagino o porquê da oposição), feito da co-presença em um onde de feixes relacionais. Há uma abrangência existencial, de subjetividades (na realidade este é o termo central ao espaço relacional) e que nos ajuda a repensar as escalas não só constituindo-se no espaço-tempo, mas também rompendo o mesmo e, quem sabe, operando outras maneiras de sentir/viver o espaço relacional, que engloba o relativo, o absoluto, mas não as rupturas e saltos "entre" espaços.



O tempo-espaço vicinal é gigantesco não apenas por ser métrico, ser posicional ou por se constituir em combinações diferenciais de espaço-tempo (sua acumulação desigual), mas porque é reflexivamente construído por indivíduos e coletivos que criam maneiras situadas de se relacionar com este estiramento de subidas e descidas, de poeira e lama, de dor e morte, mas também de sonho e vida... a escala então deve assumir o aspecto subjetivo (o que não quer dizer fechado em si e incomunicável, mas quer dizer não redutível à níveis concêntricos ou matriciais) cuja materialidade pode ser mais evidente em como o som da moto irrompe na paisagem que resiste, abafa o canto momentâneo e regular do pássaro, como o efeito de perspectiva é cortado pela câmera que não o acompanha quando em primeiro plano, como uma descida significa desaparecer ou como a solidão esmagadora se intensifica pelo sol causticante. Métrico, posicional, relacional? Sim. Mas sobretudo um "entre" espectral: a escala do existir.

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Aula de Campo - porque a escola principia no lugar


A professora de Geografia Dilva Silva, da Escola Cecília Meirelles, situada na Vila Cecília Meirelles em Pacajá (PA) desenvolveu uma aula-passeio com os(as) estudantes do 3º ano, como parte de uma sequência didática em desenvolvimento que envolveu a brincadeira: "Fui ao mercado".






Professora Dilva Silva e estuantes do 3º ano da escola Cecília Meirelles




A ideia é articular aspectos da matemática básica no cotidiano das crianças em um contexto geográfico que pode ser apreendido pelos produtos disponíveis, o que é produzido no lugar e fora, como a variedade de produtos aludem a diferentes realidades e, posteriormente, tais informações serão sistematizadas em sala de aula pelas crianças.





Parabéns pelo empenho e busca de maneiras inventivas de relacionar as disciplinas professora Dilva Silva. E parabéns as crianças por embarcarem na atividade!






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Espaço-limite: o lugar para todo o começo




Aula de campo sobre mapeamento artesanal. Núcleo D, Assentamento Rio Cururuí, Transamazônica.

Quando um tipo de virada sobre meu "o olhar geográfico" ocorreu na pesquisa, ali foi o momento que minha visão geografizante - de cima, de longe, congelante - se mostrou ridiculamente desumanizada diante do estar junto e problematizar junto a espacialidade como lugar em uma situação-limite da existência (Jaspers, 1958): à beira do rio, à beira da Transamazônica paraense, à beira da idade padrão, à beira da tecnificação do território. Como o velho Heidegger já dizia: "O limite não é aquilo onde algo deixa de ser (...) o limite é aquilo a partir de onde algo começa o desdobramento de seu ser” (citado por Stein, 1991, p. 124).









Com os Professores Alex De Abreu Cruz Cruz, Angella Nunes e as crianças da escola José Edmilson Chaves, 2015.




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Cartas sobre a Amazônia


Sou indígena amazônico. Não vivi em minha aldeia.




Não sei falar a língua de meu povo - a vida inteira ser indígena nem era uma negação, para negar é preciso reconhecer, tematizar o QUEM SOMOS e, sobretudo, ONDE SOMOS. Minha cara grita quem sou, mas ao olhar no espelho não tinha algo a ver além de um autoimposto "exotismo".




Sou geógrafo e, entre outras coisas, estudo o espaço.






No caminho para o PDS Esperança


Estudar muitas vezes, em ciência, significa não se envolver. Não "contaminar-se" com a "amostra"; como se pessoas fossem simples objetos contáveis, agrupáveis, selecionáveis para fins de generalização de uma hipótese. Como se nossa presença - observação de campo - nos colocasse acima do espaço vivo e paralisasse a vida ao bel prazer de nosso poder de "deus ex-machina".






Caminhos no céu amazônico


Sendo indígena que não me escolhia existir e geógrafo que faz estudos "sobre" o espaço voltei-me para a Amazônia - de onde sou, mas que nunca se expressou em meu corpo porque metropolitano (deuses são citadinos ou ao menos representados opulentos em cidades). E concordava com quase tudo que a ciência do espaço produzia "sobre" a Amazônia. Porém, quando me permiti mergulhar na Transamazônica - estrada ditadora que corta de ponta a ponta a região - tudo mudou.




Ao conviver, ainda que por breves períodos com professoras/res, estudantes e agricultores familiares, toda uma geografia constituída sobre minha região deixou de fazer sentido.

Pior, suspeitei que o sentido que impunha era monstruosamente arrogante e, ao mesmo tempo, desesperado pela aprovação de grupos que jamais respiraram a poeira transamazônica; atolaram na lama ou choraram por um filho perdido em malária.






Que estrangeiros pudessem ter ideias de internacionalização, argumentassem falta de modernidade regional, confundissem miséria com ausência de multiprocessador em nossas cozinhas ou valorizassem mais as árvores que as gentes da terra era, se não compreensível, ao menos lamentável. Porém, que os próprios geógrafos amazônicos macaqueassem formas de encaixar ideias prontas que tornassem "científicas" as realidades espaciais amazônicas era inaceitável.




O problema não era usar os conceitos - afinal; quem lê Dostoievski pode retirar daí achados preciosos para dialogar com sua realidade e, quem sabe, torná-la mais compreensiva.



Escalas do Olhar


O problema não é "usar Foucault" para entender um assentamento rural transamazônico; o problema é a subserviente aceitação de um conceito cunhado em outro tempo e espaço para "tornar mais científico" o entendimento acerca de assentamentos rurais amazônicos. Quando inspiração vira respiração e dependemos dos aparelhos mentais de outros para viver nossas vidas estamos na antessala da morte do pensamento autônomo.




E isto é horrível. Porque inibe a explosão criativa do saber.




Os mapas e cartas amazônicas; com raríssimas exceções, expõem um quadro regional de cima e paralisado, dado a nosso olhar pretensioso, não contaminado com o tecido vivo da existência; não impregnado de cheiro e história, ilusoriamente livre para ver - um olho totalizante, um olho que só reconhece pontos, linhas, áreas; tranquilo porque qualquer um - inclusive você e eu - pode "entender" o que é o espaço amazônico, especialmente com o milagre do Google Earth e toda a informática de precisão matemática - mais real que a realidade - dada a nós como benção reveladora e transparente das alturas celestes.






Pontes de sentidos


E neste quadro visto do céu e paralisado no tempo; desaparecem nações, famílias, diferenciações de cultura e linguagem (a não ser quando legendados em cor uniforme, que torna miseravelmente asséptico o que é movimento e som). Desaparecem povoados, pequenos rios, organizações criativamente inovadoras de gestão da vida humana que não se aparta da natureza; desaparece, enfim, a Geografia construída nas tramas da vida para se dar a nós como ciência generalizante, desalmada – ato de cartografar o que é preciso se expulsa da existência o que importa.






Ninguém olha para o céu senão com os dois pés no chão - Husserl


Os mapas são feitos para realizar profecias sobre a Amazônia e a mais moderna e desejosa - ainda que inconfessável - é declarar a inexistência dos povos originários; negar-lhes uma geografia, uma história e, por efeito, um futuro. Seu futuro. Que também é meu.






Saely


Violentar ideias ancestrais para servir aos filósofos e cientistas do momento que roubam concepções jurídicas, maneiras de viver e pensar a relação com o mundo, conceitos seminais para outro(s) futuro(s) e não reconhecem a origem de seus pensamentos. Pensadores que arregimentam multidões às palestras e aos seus livros, acumulando seu prestígio de vampiros – colonizadores do saber e contribuintes da inexistência de povos e coletivos amazônicos e outros povos originários pelo mundo (e cobram patente sobre "sua" propriedade intelectual desavergonhadamente).






Ao encontro de mapas caminhantes


Ao olhar no espelho agora eu vejo um mapa - marcas de um espaço vivo que aponta para luta e beleza; tempo e projeto. E meu sorriso - que carrega a tristeza da perda no espírito - exige uma cartografia "da" Amazônia não "sobre" ela; mapas com canto e vida; com cheiro de mata e gosto de quem conhece na alma seu chão. Estas cartas ainda não existem; ou melhor, foram expulsas da existência pelo Olho (que decide como devemos enxergar o mundo) e está na hora de "re-existir": porque Onde Sou Eu!




Images: Wallace Pantoja


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Cartas sobre a Amazônia

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Geocartografia na Escola Santa Júlia, Vicinal Santana, Anapu (PA)


Mapas, como representações espaciais, tendem a produzir uma percepção padronizada das realidades. Quando pensamos em território brasileiro, quase automaticamente, repercutimos no acervo imaginário os contornos políticos em formato de mapa.

Isto vale também para a Região Amazônica - mesmo que se queira no plural; o que se modifica é o "zoom", mas não as formas de comunicação padronizada, nossa partilha [em-sendo] com outr@s é geograficamente unívoca, salvo raras exceções. O resultado é o "olhar de medusa" e o "olhar de sobrevoo", como nos diz Merleau-Ponty: petrificação e distanciamento, duas condições científicas.

Tentar outro caminho, de representações entrelugares por crianças que os vivem como seus horizontes de sentido (direção interpretativa, não só de compreensão mergulhada), as professoras e professores de algumas vicinais de Anapu e Pacajá (PA) desenvolvem outras expressões geocartográficas.

Este projeto surgiu de uma vontade partilhada entre nós, alimentada por uma intuição forte: a geografia que se aprende é determinante para o olhar que temos do mundo - e se a aprendemos de maneira padronizada como "medusa e sobrevoo", construímos um conjunto de dessensibilizações espaciais: a) desconhecimento e desinteresse em relação à dinâmica espacial dos próprios lugares; b) sentido depreciado de si-mesmos, como "aqueles que não aparecem porque não seriam importante"; c) conhecimento fraturado das relações entre escalas: concêntrics e apriorísticas no trio singular-particular-universal e não construídas em fenômenos que podem ou não acionar diferentes escalas e se expressam em escala não apriorística; d) desvalorização e desconhecimento das relações entre lugares, territórios, regiões e espaços, porque não se exercita a representação de seu ambiente e ambientes diferenciais em possível conexidade interpretável e cartografável; e) derrota do encanto cartográfico, fundamental como princípio e fronteira constitutivo das novas maneiras de "dizer o mundo.





Portanto, quero agradecer ao professor Samuel Mendes e aos estudantes da E.M.E.F. Santa Júlia, Vicinal Santana, Anapu, Pará; pela acolhida, vivacidade, criatividade e vontade de saber-se através da geografia, ainda de sobrevoo, ainda medusada, mas em re-criatividade, não uma simples aproximação - a famosa escala cadastral - mas intersubjetivação do próprio espaço geográfico em processo.

Esta geocartografia de muitas facetas, será interpretada conjuntamente por professores, crianças, pais, vicinais. São muitos desenhos, imagens, vídeos, relatos, memórias que não me parece que queiram (ou necessitem) de explicação, mas de compreensão - deixar com que as mulheres e homens vicinais realizem seu "dizer-é", deixar com que as crianças falem sobre seus lugares e seus geossímbolos, em um processo tenso de afirmação e fratura que é sua história de r-existência, enquanto a extinção programada à beira da Transamazônica avança difusa e ininterruptamente. É desta compreensão que necessitamos nós, geógrafos, caso contrário faremos "atestados de morte dos lugares" em sobrevoos e petrificações científicas, contribuindo para que a Geografia seja - o que é louvável - produção do conhecimento, mas não a realização de projetos de mundo que não se permitem uma lógica estruturante, mas desviante, que não se permitem uma arquitetura rígida e sistemática, mas trajetiva entre o visível e o invisível. Sobretudo uma geografia que não desperte a paixão pela necessária criação de coexistências, mas apenas um decalque de justaposições e planos-lisos, digitalmente deslumbrantes e esvaziados de vitalidade encorporada. Os mapas das crianças vicinais são presentes e dádivas para uma cuidadosa reflexão-ação transamazônica.











Transamazônica

Vicinais - como os decretos de inexistência se espacializam?


Na Vicinal do Adão, Assentamento Rio Cururuí, ligado à Sub-região 27 (Marabá) do INCRA, a realidade geográfica é bem diferente do seu estatuto de representação. Do ponto de vista representacional, o espaço que se desenha é feito de ausências mais do que lacunas, de superfície distanciada paralisada temporo-espacialmente, seja de dados, de imagens, mapas e conteúdos, embora possamos encontrar aqui e ali, de maneira bastante desatualizada, alguns fragmentos informativos.

Oficialmente são 726 famílias (MDA/INCRA, 2012b), um dos maiores nesta Sub-região, sua implantação remonta a Julho de 2005 (MDA/INCRA, 2012a apud BRITO, 2013), formado por 10 Núcleos - ou, atualmente, vilas - de A a J, em terras antes objeto de madeireiras e pecuaristas, no município de Pacajá, Km 258, com duas entradas próximo a Vila Arataú, entre Pacajá e Novo Repartimento.




Sub-região 27 do INCRA e Município de Pacajá


As notícias veiculadas sobre Assentamentos - bem como outros dessa sub-região - estão ligados ao desmatamento, a exploração ilegal de madeira e assassinato de pequenos produtores por pistoleiros a mando de Fazendeiros em 2010 e 2011 (CPT, 2011). No mais, do ponto de vista geopolítico e estudos sistemáticos desta região transamazônica temos um tendência de enxergar os mesmos pela escala-signo macro-regional, que prioriza o sobrevoo como se isto pudesse capturar a particularidade e generalidade de processos ou recorrendo a dados que, minguados intencionalmente, não focalização questões espaciais, inclusive justificando a não priorização desta espacialidade em termos geopolíticos pela "dificuldades de acesso" do Estado (SAEB/MEC, 2014 apud PANTOJA, 2015).






Entrada do Assentamento Rio Cururuí, Vicinal do Adão (OLIVEIRA; LIMA, 2014)




Placa do Ministério da Educação com os valores e término da execução (PANTOJA, 2015)


Entretanto, justamente pelo poder da escala-signo conjugada a dificuldade de acesso, a manipulação de dados e a não priorização do espaço vivido viabiliza processos como a liberação de milhares de reais para construção de escolas não construídas, em um espaço aonde a escola pode significar uma lugaridade nuclear e abertura conectiva para o mundo.







Fundação e abandono da escola (PANTOJA, 2015)


O Núcleo D, assim como outros Núcleos que receberam a construção de escolas com financiamento e execução do mesmo estão com paredes e fundações se degradando evidenciando um desperdício nada menos que inacreditável de recurso público para um espaço prioritário, com ganhos evidentes por parte dos executores das obras. De modo que os decretos de inexistência viabiliza a mistificação geográfica da realidade para ganhos específicos utilizando as fraturas geográficas: a) escala-signo; b) ausência de geoinformações sistemáticas; c) desconhecimento do espaço vivido; d) dificuldade de acesso como justificativa; e) Representações espaciais calcadas em dados e não em fatos (PANTOJA, 2015).




A escola inexistente, Núcleo D, Cururuí (PANTOJA, 2015)

Geografias que tematizem o que, geopoliticamente, se expressam não como invisibilidade, mas como inexistência são centrais para que a realidade espacial viabilize esclarecimento e entendimento crítico da Transamazônica e não continue a contribuir para esta "paralisia têmporo-espacial" (HÄGERSTRAND, 1976) cientificamente persistente, socialmente intencional e produtora de ganhos privativos em detrimento de centenas de famílias do campo.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS




BRITO, M. N. S. A reforma agrária na Amazônia Oriental: implicações do processo de interdição de assentamentos rurais na vida de camponeses da Transamazônica - PA. 2013. 213 f. Dissertação (Mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável) – Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural, UFPA; Embrapa Amazônia Oriental, Belém, 2013.




INCRA. Projetos de Reforma Agrária Conforme Fases de Implementação (Período de criação 01/01/1900 a 31/12/2011). Relatório do Sistema de Informações dos Projetos de Reforma Agrária - SIPRA, 2012.




HÄGERSTRAND, T. Geography and the study of interaction between nature and society. geoforum, v. 7, n. 5-6, p. 329-334, 1976.




OLIVEIRA, A. N.; LIMA, M. I. R. Assentamento do Cururuí, Núcleo D: O Espaço como Lugar de Vivências no Limite da Humanidade (2007-2013). Trabalho Acadêmico de Conclusão (Licenciatura em Geografia), IFPA, 2014 (mimeo).




PANTOJA, W. W. R. O princípio geográfico de conexão frente à “universalização do ensino básico” no Brasil – o caso transamazônico (no estado do Pará). Geosul, Florianópolis, v. 30, n. 60, p. 165-190, dez. 2015. ISSN 2177-5230. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/35472/31044.






















Espacialidade

AS PAREDES DE MAURÍCIO FRANCO - DE ESPAÇOS OUTROS



Descascadas ou virgens, fraturadas ou geométricas, paredes normalmente são molduras para arte, vácuos plasmados de suporte para a luz em galerias que focalizam o objeto artístico direcionando o olhar. Porém, e se as próprias paredes em sua imperfeição não-contornável assumirem a vivacidade artística?





O Todo


Este é o trabalho do artista paraense Maurício Franco, criações aderentes às paredes dos amigos, espaços de trânsito e desconhecidos doadores de "telas habitáveis", carregadas de marcas e tempo, assumem a quadratura rizomática para sua pintura condenada à inocência, de modo algum efêmera, mas já nascidas para crueza e fragmentalidade porque envolvidas no suporte que as aconchega destrutivamente. Elas não estão sobre, mas com a parede, acompanhando sinuosidades, rebocos destroçados, trepadeiras e sujeira irrevogável que é, ao mesmo tempo, finitude e muco criativo, explorado pelos desenhos de Maurício.









Sereiar





O artista visual é bastante conhecido em Belém do Pará pela variabilidade de seus trabalhos, mas suas pinturas e desenhos aderentes às quadraturas perdidas nos transportam aos entremeios da construção que é criação, da criação que é relação e da relação que é deterioração renovadora, uma beleza discreta que produz contornamentos e contorções ao criar nos limites - sempre inícios e não fins - da materialidade o sentido imaterial que transcende pintura e parede, em reunião.



Pras Negas





O que Maurício nos pede é uma "parede de felicidade", estranhamente contra a qual não podemos vencer ou avançar, a não ser violentamente, se inscreve ali uma abertura, um novo horizonte de sentidos e sentimentos, confundindo-se com o ambiente, pequenos mundos gostosamente mágicos e rabiscados como que em fuga para o encontro.




A variação temática é enorme, como um fluxo de inconsciência coletiva. Porém, mulheres e religiosidades são recorrentes, uma insistência multiplicada ao infinito, eterno retorno, circularidade que faísca os olhos, o desejo e a celebração da vida e, também, o mistério, o tremendo e o incontrolável despedaçamento.



Nadar, Voar, Libertar





Paredes vivas abertas pelo Mau...




Artigo originalmente publicado na Obvious Magazine












Transamazônica

A escola e o habitar vicinal


Os professores e professoras transamazônic@s realizam um processo educativo que nos possibilita conceber o sentido fundamental da escola como construção do habitar, para se aproximar Heidegger (2012).

De muitas maneiras construir é habitar, embora, em nossas sociedades não só desigual, mas fratura - onde a escala da vivência se dá em mundos diferenciais e, por vezes, vampirizantes uns dos outros - a fratura separa quem constrói de um sentido de habitar; por isso mesmo, pensar sobre a relação entre construção e habitação é cada vez mais estranho no mundo contemporâneo.

Olhando as imagens da Semana do Meio Ambiente, desenvolvidas pelo professor Alex de Abreu Cruz em parceria com outros professores da escola Pedro Barbosa (Pacajá), temos um encontro franco entre o construir e o habitar.




Crianças em uma "estrutura do cuidado" da escola. Foto: Alex Cruz, 2016


Obviamente, sabemos da frágil assistência do poder público - a começar pelo municipal - para com as escolas no campo e do campo, ao longo da Transamazônica Paraense. O que impõe, ou exige, uma apropriação de tarefas e comprometimentos que extrapolam as competências dos professores e o aprendizado dos estudantes, alguns podem dizer, não sem razão.

Porém, o que temos de nos perguntar é - Podemos construir para habitar um espaço escolar? Como habitar a escola em ambientes campesinos? Qual o sentido de habitação que se evidencia na relação entre o cuidado da escola e o cuidado de si? São questões que evocam as imagens.



Capinando a lateral da escola, (re)construir relações. Foto: Alex Cruz, 2016


Na medida em que construir deixa de ser um distanciamento para se pôr como processo de habitação - criar um espaço para cuidar-se e libertar-se - os ambientes campesinos são expressões muito elaboradas deste senso de habitação. Pode parecer um certo romantismo, e é, por que não? Todavia, além do romantismo, há os dois pés no chão e as mãos na inchada para cultivar não exatamente a terra, mas uma ambiência coletivamente constituída: habitar.



Reavivando o campinho para o brincar. Foto: Alex Cruz, 2016.


E quando a limpeza, o encontro, a parceria, a divisão de tarefas não hierárquicas, viabiliza um habitar que aconchega a amplifica a relação de-si-com-o-espaço, é possível vislumbrar outras práticas e novas maneiras de sentir e viver a escola, temos a emergência do brincar.

Que o poder público, nas diferentes esferas, possa atentar para realidades como esta e o potencial efetivamente relacional dos jovens campesinos e seus espaços construídos, não por outros, mas por si, a habitação como co-criação geográfica. Aí o brincar, o pensar, o fazer, o sonhar e o aprender, juntos, assume uma centralidade reflexiva que não podemos subestimar em sua potência e ato.



Brincar na escola como habituar-se em estar e ser juntos! Foto: Alex Cruz, 2016





Parabéns ao projeto e ação dos professores e estudantes do campo.





Espacialidade

(sem título)


Todos ficaram embasbacados com a recente comprovação do "som gravitacional" que Einstein teorizava há 100 anos! É magnífica a descoberta e, ao que parece, pode abrir campos completamente novos de estudo, pesquisa e criação de outras estratégias de abordagem tecnológica - tem gente até falando em possibilidade de viagens intergalácticas e imortalidade pela "trajeção" no tempo-espaço.






http://popsapiens.net/





Sou um entusiasta da física teórica porque "puxa" o desenvolvimento da aplicabilidade da física e amplia a persistente busca pelo novo. Ousar a comprovação de certos nexos teóricos, como "o som do universo", implica uma demanda colossal de físicos, engenheiros, arquitetos, biólogos e, para quem não sabe, até cientistas sociais em equipes multidisciplinares que, na busca metodologicamente positivista de uma teoria (e aqui de modo algum estou usando o termo no pejorativo), tendem a desenvolver diversos aparatos que irão rebater nos mais recônditos campos da vida humana. Por exemplo, vários aparelhos ligados à saúde surgiram em pesquisas que não estavam diretamente ligadas aos problemas de saúde.




Porém, é muito importante refletir sobre uma questão - o mundo descoberto pelos físicos é, de fato, o mundo dos homens no seu dia-a-dia? Até que ponto uma descoberta bombástica na física se efetiva como uma transformação nos mundos do cotidiano, da química, dos indígenas amazônicos, dos reinos da África Saheliana, dos semi-nômades siberianos? De modo nenhum quero diminuir o esforço titânico, o espírito de equipe e entrega absoluta ao ofício da criação da física como ciência que resultou no "som do universo", mas, se Einstein nos legou uma coisa foi pensar em termos de perspectiva e relativizar as relações tempo-espaciais (muito embora eu esteja sendo metafórico no uso da relatividade numa perspectiva física e não metafórico numa perspectiva geográfica, porque são mundos diferenciais, que podem se nutrir criativamente e entrar em contato, mas estão à luz de distância um do outro).






http://jornalggn.com.br/





É óbvio que não existe materialmente - é essa a tara dos materialistas, ainda que pouco se interroguem o que é, de fato, a matéria - mundos diferentes. Não extensivamente, mas existencialmente sim. O sistema de compreensão de uma idosa indígena, de um morador de rua, de um presidente da república na América Latina, de um professor de sociologia, de outro da literatura comparada com pós-doutorado em Londres, diferem bastante do sistema de compreensão de um físico teórico atuante na descoberta do "som do universo" (Também me parece claro que eles podem, dependendo da disposição de cada um, se comunicar; de todo modo, em seus respectivos mundos existenciais há muitos outros que compartilham o mesmo sistema de compreensão).




Talvez uma idosa indígena também lance mão, ainda que numa linguagem diversa, do termo "som do universo" e, o que significa para ela, e significa materialmente inclusive, é bastante diferente do que para um físico da equipe de descoberta.






http://www.suze.co.uk/





Podemos dizer que ela e todos estão errados e apenas fazem jogos de palavras ou quando muito metáforas criativas para explicitar um "som do universo", quem sabe presente na poética inglesa do século XVIII? Ou, o que é mais provável de ser taxado como metafórico ou errado: quando um mongol usa o termo para explicitar sua conexão silenciosa com a "energia do mundo".








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Transamazônica

Grito pela Justiça - contra a escalada de assassinatos em Anapu!


Dia 12 de Fevereiro vai ocorrer o "Grito pela Justiça" em Anapu, dada a escalada de assassinatos de trabalhadores rurais no município, que ficou marcado pela crime que ceifou a vida da irmã Dorothy Stang, em 2005.

No ano de 2015 foram assassinados vários trabalhadores ou pessoas envolvidas na luta pela terra, é preciso citar seu nomes ou apelidos, porque não são anônimos: possuem conhecidos, familiares, uma memória, seres humanos como eu e você, mortos brutalmente. Hércules, Ivanzinho, Zé da Lapada, Cosme, crimes às vezes cometidos no urbano para "desviar" o aspecto da luta no campo, numa estratégia nefasta de dissuasão. Por isso o grito é necessário, porque no fundo o que se quer é que o medo e o terror calem os trabalhadores e trabalhadoras do campo.










Transamazônica

De Professor para Professora






Agradeço imensamente as mensagens de carinho e reconhecimento por este dia que é meu e é nosso. Gostaria de deixar registrado minha admiração pelo trabalho diário das professoras e professores na Transamazônica Paraense, em especial na pessoa de Angella Nunes. Mulher, mãe, trabalhadora rural, liderança comunitária e professora, em condições que nos fariam recuar, ela avança! Na escola "José Jacó Chaves", Assentamento Rio Cururuí, Vicinal do Adão, 67 km da Faixa, município de Pacajá. Professora contratada, com meses de salário não pago, enfrenta dois turnos multisseriados de ensino fundamental, alfabetiza ao mesmo tempo que cuida, ampara ao mesmo tempo que dá as lições de matemática, garante a merenda junto às aulas de geografia. A primeira vista, pobreza e carência seriam o atestado de que não é possível educar-se neste lugar, mas a vida das crianças vicinais realiza pequenos milagres desconhecidos.


De modo algum isso implica conformismo e aceitação das condições - Angella Nunes é ferrenha lutadora pela melhoria de sua escola, briga junto à SEMED, mesmo sabendo do risco que é um contratado brigar em ambientes onde se usa politicamente os contratos (e não é assim nos municípios paraenses?). Porém, sua briga não implica cruzar os braços diante de crianças e jovens, de idades entre 5 e 18 anos, que chegam a caminhar até 10 km em busca de educação formal.


Tive o orgulho de ser seu professor na Graduação em Geografia, descobrindo que sua escrita poética em forma de cordel comunicava realidades espaciais que a academia, míope diante da vida, não compreendia como "escrita científica", fizemos desta escrita viva a matéria base de seu Trabalho de Conclusão de Curso, aprovado com excelência, Porque nada substitui a experiência espacial em ato! Nenhuma empiria metodologicamente coesa, por mais relevante que seja, pode destituir o que corre nas veias!


Professora Angella Nunes, que atua em uma vicinal que o MEC expulsou de sua amostragem por ser "de difícil acesso", que precisa ir na sede municipal para pegar merenda e livros enfrentando uma estrada vicinal que vocês não imaginam os perigos no inverno, que ergueu a escola junto com estudantes e seus familiares, pequena, simples, mas o lugar de reunião educativa possível, num espaço-limite da existência chamado (Trans)Amazônia.

Você é minha inspiração!



Transamazônica

Vidas vicinais e educação em Campo



Vicinal significa vizinhança - uma realidade de aproximação entre famílias, indivíduos e coletividades. Como toda relação de vizinhança é dialeticamente instável, mas explicita a perspectiva da co-presença e co-experiência em espacialidade que não é redutível, ao menos em princípio, a uma comunidade imaginada (como no caso da maioria dos territórios). Por isso é um espaço-limite da existência e aí mora sua potência de abertura para constituição de outras espacialidades.




Vicinal Santana - Anapu (PA)






Bifurcação entre Vicinal Santana e Catarina (a esquerda) - Anapu (PA)






Vicinal Serra Verde - Anapu (PA)






Pequena Produção de Feijão - Anapu (PA)






Casa do professor Samuel Mendes, Vicinal Serra Verde




Conversando com Samuel Mendes, que tive privilégio de ser professor na graduação do PARFOR e hoje é professor na Vicinal Caterina, na escola Santa Júlia, o fenômeno que se expressa, como poderia dizer Kosic, a partir de um detour (desvio), é a constituição de uma vontade de educar-se e educar os jovens na realidade do campo numa perspectiva em campo (a base concreta para uma educação do campo programática, muito embora sua programação possa significar sua descontextualização e assimilação acadêmica).







Conversa regada a Abacaxi "tirado" na hora!


Samuel, nascido na Transamazônica mesmo - sua mãe não conseguiu chegar ao hospital e o parto foi em meio a vizinhança, com ajuda de uma vizinha - trabalhava na roça "forçado" e ia para escola para fugir do trabalho junto à família. Se formou em administração e exerceu o magistério por necessidade (como em muitos casos na região), porém, agora, com família constituída resolve voltar às suas raízes, produzindo em sua propriedade familiar: abacaxi, limão, macaxeira, coco, usando técnicas e sementes conseguidas no compartilhamento de vizinhança e compartilhando também.







Filha de Samuel Mendes - beleza amazônica




Entende que só ações de base comunitária tendo em vista lutar por luz elétrica, internet, condições de vida para famílias e, sobretudo, crianças da vicinal Serra Verde, onde mora, pode criar algum tipo de inversão nesta lógica de abandono do campo para viver nas periferias urbanas. Partindo da vicinal e aproximando necessidades comuns seria possível criar alternativas mais amplas e integrativas de base comunitária reunindo diversas vicinais. Neste sentido é enfático: "Se os jovens tivesses condições de vida e estudo reais, não abandonariam esta vida para arriscar-se nas cidades. Depois de adulto é que pude perceber que gosto de produzir na terra e viver aqui com minha família".







Abacaxi no pé, pronto para ser tirado - em frente a casa de Samuel




Nossa conversa se deu regada à abacaxi. Demonstrando como tem aplicado algumas técnicas simples, como o gotejamento em período de estiagem, para manter a produção de frutas e mandioca - aprendida com um vizinho - e como planta abacaxi tirando alguns brotos para revelar a raiz e agilizar o crescimento - que aprendeu com o seu pai - assimilando técnicas como a energia solar e organizando projetos de extensão da rede de internet a vicinal, revela certas alternativas no lugar para concretização, de determinadas ações sinergéticas.







Uso do Gotejamento para enfrentar a estiagem!


"Tem muita gente que vendeu seus lotes e foi para a rua (cidade de Anapu) e agora está voltando, mas trabalhando como empregado em lote dos outros", sentencia. É a partir deste saber-fazer lugarizado, núcleo vivido da qual deriva o espaço e o território, que me parece a razão de ser de uma EDUCAÇÃO EM CAMPO.





Os professores de geografia Samuel Mendes e Dieyson da Conceição

Transamazônica

Vidas Vicinais




Crianças caminhando para a escola. Vicinal Cururuí, Pacajá -Pará - Brasil. Imagem: Angella Nunes.


Vicinal significa vizinhança. Relação de proximidade e copresença, experimentação partilhada da existência - livre e/ou imposta. Encontro do e com o outro, que pode tanto levar a desencontros (não raro letais), quanto a criação do novo, tendo em vista o futuro de continuidade encontrada, o que não deixa de ter um forte componente criativo, mas também, inevitavelmente, uma mudança do monólogo para o diálogo, uma escolha pela linguagem, compreendida como expressão humana vivida no tempo e no espaço, não como mero recurso discursivo. Vicinais, sobretudo amazônicas, não existem no plano da geocartografia, o que poderia ser apenas uma incorreção do conhecimento, se impõe como destituição dos que vivem (vicinalmente) do direito de linguagem, a começar pela linguagem cartográfica, do direito de representatividade, a começar pela política da representação, do direito de educar-se, a começar pela negação estatal de sua vontade. Enquanto a geopolítica determinar o debate do que é Amazônia, vamos perpetuar as visões do centro (mesmo e apesar do discurso descolonial), porque quem está na posicionalidade central -na formação do seu espírito humano - não pode, por mais que queira, falar de outras posições, a não ser que se desloque (e o seu olhar) para outras vizinhanças, constitua outras proximidades, experimente novas copresenças e funde novos encontros, ao invés de pretender domínios e enquadrar o outro: como objeto, estatística ou recorte unilateral - de pesquisa. Este, o primeiro ato que decreta a inexistência cientificamente justificada.

Transamazônica

Educação a partir das potencialidades do Lugar




Professora e estudantes - as potencialidades produtivas e educativas do lugar!


A professora Yara Caetano, graduanda em Geografia pelo IFPA, Campus Tucuruí, em atividade na escola, que promove o diálogo entre vários saberes - desde o aspecto nutricional, passando pela variação de frutas (incluindo as regionais e locais) e a teatralização "salada de frutas" por parte das crianças - o saber e o fazer indissociáveis!





Saber e fazer - criação da salada de frutas


Trazer o lugar - e suas potencialidades - para a sala de aula é abrir um mundo de conhecimento que está diretamente vinculada a vida cotidiana das crianças. É uma valorização do vivido como tema para o saber, muito próxima a proposta de Paulo Freire e, ao mesmo tempo, a descoberta do trabalho e produção agrícola regional/local como fundamental para a existência da própria sociedade.





Saber e Ludicidade - expressar-se a partir da temática desenvolvida





Espacialidade

TRANSAMAZÔNICA - IMAGENS DA VIDA ENTRE LUGARES


Pense em um espaço que fica entre lugares. Nem aqui, nem lá. As estradas servem para ligar um ponto ao outro, da partida à chegada. Mas e os que vivem no entre lá e aqui?





Seu Asmerindo. Um gênio na beira da "Faixa". Imagem: Mateus Moura

A BR-230, conhecida como Transamazônica, corta as regiões norte e nordeste do Brasil, projetada para unir Atlântico ao Pacífico, nunca finalizada, revela o corte na Amazônia que viabilizou a "conquista da região para o Brasil", embalada pelo patriotismo autoritário - há algum outro tipo? - que unia a terra sem homens (Amazônia) aos homens sem terra (Nordeste), dois estereótipos que se projetaram como verdade.

A estrada, como objeto projetado em nossa consciência, apaga a vida que teima em se fazer à sua margem. Poderíamos dizer que vivem "no fim do mundo", dada nossa certeza urbanocêntrica, mas o fato é que existem no entre-lugares, espécie de vida em/no trânsito, fogem da morte "matada" ou "morrida", não podem ser capturados por estatísticas oficiais ou programas cuja informação prioritária é o endereço residencial. No ato de fugir se encontram, no tato de vagar pela beira da "Faixa" recriam seus próprios lugares íntimos e ancestrais.




Casal mais antigo no trecho entre Anapu e Pacajá (PA). Imagem: Cleison Nazaré




Goiano, poeta transamazônico, e sua neta. Recitando seu cordel para nós. Imagem: Cleison Nazaré


As pessoas, em família, em grupos ou solitárias, constroem formas de viver imersos entre a estrada e a floresta, de uma simplicidade que, numa primeira visada, podem ser entendidas apenas como miserável, mas que revelam clareza de prioridades e sonhos - estudar, defender a terra, escrever suas histórias, plantar a vida para colher existência!


Quase nunca captados em imagens, jamais localizáveis através do Google Earth, sempre percebidos como inexistentes ou, quando muito, massa sem individualidade. Não participam dos debates acerca dos caminhos do mundo, embora entendam muito bem o que é viver nos/dos caminhos. Sua linguagem é outra, nova, construída com palavras rápidas e de contextos geográficos longínquos, revela uma poesia - e há poetas no entre lugares - dura e doce, em cordel verde salpicado de lama e poeira, transpirando incontáveis lugares carregados nas memórias, na alma e nas suas mãos de transamazônicos.


Esta experiência é irredutível, não porque não possa ser comunicada, mas porque quase nunca o é. Se a literatura (artística e científica) consagra o olhar de quem percorre o caminho de um ponto ao outro, quase nunca valorizou quem está vivendo à beira do caminho, posição privilegiada para sentir a passagem não como escapismo, mas como permanência do ser.



Por uma janela à beira da estrada... Imagem: Mateus Moura.

Espacialidade

Biografia dos Lugares


"Flider's Green, que nome estranho para alguém", diz Matthew, um corvo falante.


"Alguém, não. Onde!", responde Flider's Green: "Eu não sou alguém, sou um Lugar".








O Grito de Edward Munch

Este diálogo, saído de Sandman (Neil Gaiman), uma história em quadrinhos muito popular, traz a ambiência necessária para falarmos de "espacialidade". O termo tem muitos significados, mas vamos deixá-lo abrangente, leve, meio solto, porque se perdemos em precisão, ganhamos em imaginação. Afinal, a espacialidade é mais do que uma condição da existência, é uma potência espiritual!

Quero, aqui - no momento em que você lê, o seu agora - convidá-lo a viver a espacialidade! Sentir, mesmo que nas coisas miúdas, ou até fora do tempo, esta potência, que ganha vida no encontro entre o ser humano e isto que chamamos de mundo, embora não tenhamos muita clareza do que queremos dizer por "mundo".

A espacialidade não é o mundo, mas sem ela sequer era possível falar de mundo. Porque podemos estar com "todo o mundo", mesmo que estejamos num lugar, persistindo a espacialidade. Podemos estar juntos e, ao mesmo tempo, sozinhos - terrivelmente sozinhos a ponto de gritar - ainda assim persiste a espacialidade, esta autoprodução entre nós e a extensão além.




Da série de pintura "Atlas" de Fernando Vicente

Aqui, vou propor não uma viagem espacial, mas viagem pelo espacial - desde nossos cantos secretos até a distância infinita que não podemos alcançar com as mãos, apenas com palavras, como o mundo!

A ideia é simplesmente fazer do aqui, um encontro possível, só possível a partir da construção de uma espacialidade, necessariamente movente, fluente, escapável, sem uma duração que não seja a troca e o voo do pensamento.

Realizar pequenos momentos densos de troca, experimentar extensões incontidas ou simplesmente acessar o outro em sua trajetória virtual diária, esguia. Fazer do aqui - no seu agora - um LUGAR VIRTUAL, no sentido mais pleno e múltiplo do conceito. Geografar nossos destinos, geobiografar, tarefa impossível e inesgotável, cuja única alternativa é assumir o impossível, ser inesgotável.

Nem só razão, nem só fé para compreender a espacialidade...

"É infrutífero falar da contraposição entre razão e a fé. A razão é ela mesma uma questão de fé. É um ato de fé asseverar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade" (G. K. Chesterton, o Flider1s Green real).

Esta potência que vivemos, Homo Tractus é nossa comunidade de destino - seja qual for o caminho que escolhermos, tudo muda, a constante é o caminho.







Transamazônica

O Extermínio indígena hoje, no Brasil, não é fruto do acaso das relações - É um projeto justificado pelo mito do polo racionalista da Modernidade


A fala do secretário de Educação de Jacareacanga, município no sudoeste
do Pará, limite com o Amazonas, com uma população de matriz indígena
expressiva: "Não fazemos educação indígena, mas educação para
indígenas", é uma fala emblemática. O "para" aí faz toda a diferença!
Fazer "para" alguém é desqualificar no sentido de entender que
o "alguém" não sabe fazer ou não merece que seja feito do seu jeito,
supondo o "alguém" ignorante e não diferente, inferior e não diverso.
Não se enganem - o que há na Amazônia é um projeto de extermínio
indígena em sentido largo, que menospreza seus aldeamentos no entorno de
Belo Monte, que nega os fluxos de circulação dos rios e a pesca
impactadas por grandes objetos técnicos, que destrói a possibilidade de
educação na língua materna, porque entende que a Língua Portuguesa é a
única possível para afirmação nacional, afinal, supõe-se que não podemos
fazer o esforço de comunicar-se com o outro, logo, negamos ao outro a
possibilidade de fala, não apenas de falar, um cerceamento político que,
no limite, acredita na morte cultural dos outros como única
possibilidade de realizar o progresso - expresso na Bandeira como
metanarrativa de uma nação que se iludiu, acreditando ser una, quando é
estilhaçada, fragmentária, diversa. Sem diálogo não há acesso a política
e sem acesso a política não há construção de transformação possível.
Nos imobilizamos em nós mesmos e seguimos rumo ao progresso firme que
canibaliza lugares, solidariedades, existências, projetos e o próprio
futuro, dos indígenas e o nosso.





https://www.youtube.com/watch?v=kCYce2MObgc&feature=youtu.be&noredirect=1

Transamazônica

Jornal de Tucuruí e Região: Pacajá: Projeto de Lei de autoria do prefeito Tuni...

Jornal de Tucuruí e Região: Pacajá: Projeto de Lei de autoria do prefeito Tuni...: O prefeito de Pacajá Antônio Mares Pereira (PSB), conhecido popularmente na cidade como Tunico Doido autor do Projeto de Lei que redu...

Transamazônica

Lançamento do DVD: À Beira da Faixa






Será Lançado dia 16 de Dezembro, em Belém do Pará, no Campus do IFPA, o Documentário
desenvolvido a partir do projeto de extensão “Espaço e Cotidiano em Pacajá
(PA): Representações da Vida à Beira da Faixa”, aprovado no edital Uso de Tecnologias
da Informação e Comunicação (TIC), no âmbito do Plano de Formação Docente do
Estado do Pará (PARFOR-PA), com financiamento da Fundação Carlos Chagas em parceria
com a SEDUC-PA e FADESP. O projeto foi realizado entre 2012 e 2013, pelo IFPA,
junto às turmas de Geografia Licenciatura do polo Pacajá, campus Tucuruí.





Pretendemos
que o filme seja uma ferramenta no processo educativo, para construir uma ponte
entre a realidade da Transamazônica e as escolas do Pará e do Brasil,
viabilizando discussões/intervenções educativas em diálogo mais próximo das
vivências dos trabalhadores e trabalhadoras, produtores do espaço à beira da
“Faixa”, que é como rebatizaram a Transamazônica.





Como
suporte ao documentário, desenvolvemos o
blog transamazonica2.blogspot.com, neste espaço virtual vamos veicular experiências dos professores e professoras no uso do filme
em sala de aula. Contamos com você, para que o projeto continue seu frutífero percurso formativo!





Dedicamos
este trabalho aos homens e mulheres transamazônicos, porque através das
histórias de vida, vislumbramos com mais clareza, para além da poeira e da
lama, como é desafiante a construção do seu lugar à beira da Faixa.





Ficha Técnica:




Coordenação do Projeto e Direção: Prof. Msc. Wallace Pantoja

Fotografia, Cinegrafia e Edição: Cleison Nazaré e Mateus Moura

Iluminação: Jefferson Nascimento

Som: Guto Mafra

Roteiro: Turmas de Geografia Licenciatura de Pacajá, Campus Tucuruí

Capa e Arte do DVD: Maécio Monteiro

Pesquisa: Dieyson Conceição, Alex Cruz, Asmavette Demetrio e Marcélia Araújo

Realização: IFPA Campus Tucuruí, Polo Pacajá;

Apoio: Fundação Carlos Chagas, FADESP, SEDUC-PA, PARFOR-PA;


Transamazônica

Socorro, Socorro - Cordel Poético de uma Trabalhadora Anônima (fragmentos)

I

(..) A
você vou contar o que aqui está acontecendo.



Por
causa dos pobres querem ser felizes estão morrendo.


Suas
roças não podem fazer por não poder desmatar.



depois que a madeira ser retirada é que algumas linhas podemos desfrutar


Por
causa da madeira já morreu algumas pessoas. E mais irão morrer.


Se
uma autoridade como você não quiser nos socorrer.





II

(...)







Logo
em seguida alguém receberá


o
crédito de apoio com muita humilhação


descontando
R$ 150,00 de cada colono, para seu alimento e seus barracos chegar,

tiveram que, 10 a 20
km, nas costas carregar. (...)













III

(...) em seguida
nossa madeira começaram a levar.



Não
negociando conosco, porque direito não temos de falar.



tentamos pedir ajuda ao prefeito, vereadores e outras autoridades.


Mas
parece que todos têm medo dessas duas entidades (...)




Muitos
têm medo de trabalhar aqui é porque corre muito perigo.


É
fome, é malária, é leishmaniose, é longe e por isso é um trabalho sofrido.





IV







Aqui é só mentira, difícil é uma verdade

é
só nos enganarem com falsas notícias, faltando para nós felicidade,


quando
batemos palmas para uma verdade de mentira


pensamos
que tudo vai mudar,

enrolam tudo o que
nos falam e de volta levando pra trás, sem nunca mais voltar (...)






V

(...)



É
triste o que já vem acontecendo,


muitos
acabaram o que tinham na cidade, para dar uma vida melhor a suas famílias e aqui
estão morrendo.


Somente
pessoas como você podem pensar e se comover


lembre-se
de seus pais, seus irmãos e outros de seus familiares


que querem ser feliz, como eu quero ser (...) Sei
que Deus escolheu “eu” para lhe escrever e você para esta guerra vencer.





VII





Aqui
termino este relato lhe pedindo, por favor,


não
comente deste mesmo pra alguém pra que eu não seja mais uma vitima do matador (...)





Ps. Me ajude Árvore Verde, que não se abala e nem morre.










Imagens diversas do projeto "Representações da Vida à Beira da Faixa", os fragmentos foram reproduzidos com autorização da autora, resguardando as referências específicas para proteção da sua vida.
























Transamazônica

À Beira da Faixa (II)


Segundo fragmento do documentário que não busca respostas, mas perguntas incisivas sobre a vida na Transamazônica, valorizando a compreensão da Amazônia a partir de contextos específicos e partindo das vozes, vivências e intenções dos que produzem o lugar, com toda a dor e a poesia que este "desbravamento" exige dos que, como loucos aventureiros, enfrentaram o desconhecido.








Projeto TIC-PARFOR: Espaço e Cotidiano em Pacajá (PA): Representações da
vida à beira da Faixa. Instituições envolvidas: IFPA, Fundação Carlos
Chagas, Fadesp e Seduc-PA. Equipe: Pesquisa - Wallace Pantoja, Dieyson
da Conceição, Alex Cruz, Asmavette Demétrio e Marcélia Araújo; Som -
Guto; Iluminação - Jefferson Nascimento; Imagens - Cleyson Nazaré e
Mateus Moura; Edição - Cleyson Nazaré e Mateus Moura; Assistente de
Direção - Mateus Moura; Direção - Wallace Pantoja.

Transamazônica

À Beira da Faixa (I)


Teaser do documentário "À Beira da Faixa", produzido como material didático para se pensar a Transamazônica no currículo e promover o debate sobre a geograficidade das vivências e das relações entre seres humanos e a terra-abrigo. A proposta não é criar um rosário de resposta prontas, o documentário serve antes como meio para se problematizar a construção do espaço amazônico, a partir de um contexto específico e, ao mesmo tempo, comprometer-se com as falas do lugar em questão - a Faixa entre Pacajá e Anapu.

Sem pretender dizer "a verdade", aqui oferecemos a impressão dos olhares que se posicionam "dentro" e não "fora" da realidade forjada na relação existencial entre o ser e o espaço geográfico.

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Projeto TIC-PARFOR: Espaço e Cotidiano em Pacajá (PA): Representações da vida à beira da Faixa. Instituições envolvidas: IFPA, Fundação Carlos Chagas, Fadesp e Seduc-PA. Equipe: Pesquisa - Wallace Pantoja, Dieyson da Conceição, Alex Cruz, Asmavette Demétrio e Marcélia Araújo; Som - Guto; Iluminação - Jefferson Nascimento; Imagens - Cleyson Nazaré e Mateus Moura; Edição - Cleyson Nazaré e Mateus Moura; Assistente de Direção - Mateus Moura; Direção - Wallace Pantoja.

Transamazônica

Fragmentos Imagéticos das Vidas à Beira da Faixa (II)




Continuação dos fragmentos imagéticos da Transamazônica, os olhares se complementam, conflituam, se associação e fraturam pelos caminhos das vicinais!

Vídeo elaborado a partir das entrevistas prévias para o documentário do
projeto. As entrevistas foram realizadas pelos estagiários Marcélia
Araújo, Asmavete Demétrio e Dieyson da Conceição. Edição: Mateus Moura;
Coordenação: Wallace Pantoja.

Transamazônica

Fragmentos Imagéticos das Vidas à Beira da Faixa (I)




Entre falas e olhares, entre anseios, risos e enfrentamentos, as vezes desumanos, do cotidiano é que a espacialidade é constituída! Homens do campo na Transamazônica e Vicinais, comunicando sua existência.

Vídeo elaborado a partir das entrevistas prévias para o documentário do projeto. As entrevistas foram realizadas pelos estagiários Marcélia Araújo, Asmavete Demétrio e Dieyson da Conceição. Edição: Mateus Moura; Coordenação: Wallace Pantoja.

Transamazônica

Educação do Campo e Escolas Multisseriadas - Repensando metodologias a partir do contexto!







Equipe que abordou sistemas de transporte e espaço

A construção do documentário acerca da Transamazônica integrado à disciplina Metodologia do Ensino da Geografia, propusemos um desafio aos professores em formação: criar metodologias que pensassem a multisseriação (várias séries na mesma sala) como uma solução e não como um problema, haja vista que:







Equipe discutiu reaproveitamento/reciclagem do lixo

"Normalmente, dividimos o quadro em tantas partes quantas séries tivermos e colocamos um pouco de conteúdo para cada até o final, depois voltamos. O problema é que quando temos que auxiliar um estudante em particular, os demais já acabaram e começam e ficar inquietos" (M.B. professora na zona rural e graduando do curso de Geografia pelo IFPA Julho de 2013).







Equipe que abordou paisagem e animais domésticos/silvestres

Esta e muitas outras falas demonstram a sobrevivência do padrão "seriado" e "urbano" no contexto "multisseriado" e "rural". Soma-se a questão de trabalho a mais que se tem no processo de dividir o quadro e colocando os conteúdos, seja para o professor, seja para os estudantes, se estabelecendo uma reprodução e não exatamente construção do conhecimento que, convenhamos, não é uma exclusividade do campo, é a regra comum nas escolas urbanas também.




Entretanto, para refletir sobre o problema e elaborar alternativas foi proposto a construção de uma metodologia de avaliação que: a) partisse da multisseriação como solução; b) envolvesse os estudantes no processo de "construir" conceitos e não apenas reproduzir; c) fosse um conhecimento relevante e contextualizado com as relações do lugar mas, sem perder de vista, mas relações possíveis com outros espaços, outras escalas;







Equipe que discutiu tipos de transportes

Os resultados apresentados refletem que os próprios professores já tem clareza de como trabalhar a multisseriação, já que as metodologias apresentadas revelam a preocupação com os critérios e uma clareza do quanto se melhora a aprendizagem individual e coletiva, empregando a criatividade em temas, como: tipos de transporte e organização do espaço; paisagem do lugar e fauna - silvestre e doméstica; diferenciando as paisagens - natural e cultural, rural e urbana; O lixo que não é lixo: alternativas de reaproveitamento e reciclagem;







Equipe abordando tipos de paisagem

É preciso fazer com que tais estratégias metodológicas não ocupem apenas "fragmentos" do plano anual e das práticas escolares, e sim que ganhem terreno, possibilitando repensar por completo um modelo de ensino que potencializa a deslugaridade, em prol de outro, que reafirme o contexto local (sem perder de vista suas contradições e suas relações estruturais). Porque se o lugar pode ser "o locus da alienação", também é a partir dele que, em processo escalar, o espaço-totalidade pode ser pensando, explicado, compreendido, significado e vivenciado!
































Transamazônica

Construir um documentário: a "reinvenção" do lugar e meio para repensar a prática educativa!


No encontro presencial com a turma de Licenciatura em Geografia, em Pacajá, no âmbito do Projeto TIC-PARFOR: Espaço e Cotidiano em Pacajá (PA) - Representações da Vida à Beira da Faixa, vinculado à disciplina "Metodologia do Ensino de Geografia", foi apresentado parte do documentário em construção para análise crítica e intervenção dos professores envolvidos no processo.

Os professores, ao entrarem em contato com os vídeos fizeram contribuições importantes que devem ser incorporadas ao processo de edição, pela sensibilidade, olhar acurado sobre a história e sobre o seu espaço representado no vídeo:

O contraponto no semblante e na postura de vida de dois moradores de vicinais da Transamazônica, de um lado, Almerindo (Vicinal do Portel), de outro Francisco (Vicinal Ladeira da velha), aparentemente unidos na condição de nordestinos que, desterritorializados, buscaram novos enraizamentos à beira da estrada, representam suas vidas diametralmente opostas. Para um, viver na vicinal é um encontro consigo e sua alegria comovente, para o outro, o fracasso e a pobreza cobram um preço alto demais na velhice.




Almerindo, vicinal do Portel - "Eu sou um gênio porque nasci sabendo das coisas".




Francisco, Ladeira da Velha - "A Transamazônica é boa, foi eu que caí no fracasso!"




Além disso, dois vídeos tiveram especial atenção por explicitarem questões concretas de conflitualidade no contexto onde o projeto está sendo desenvolvido: a) o papel do professor em escolas multisseriadas, o que levou a diversos relatos de experiências similares a apresentada no documentário em construção; b) conflitos pela posse da terra em espaços onde o enfrentamento violento gera uma (des)ordem espacial que, muitas vezes, é silenciada no âmbito da geografia ensinada pelos professores, como no caso da Vicinal do Cururuí, mas que encontra modos se fazer presente como debate incontornável enquanto conteúdo escolar, porque revela o próprio Lugar onde professores e estudantes constroem suas vidas, apesar da opressão flagrante que vivem - o risco de debater, esclarecer e se posicionar diante da realidade põe a própria vida em risco!






Apresentação de trechos do documentário em desenvolvimento para crítica, debate e proposição da turma.






Construção textual a partir dos vídeos - sugestões e ideias debatidas, fundamentais para edição do documentário.







Os depoimentos e a captação de imagens que compõe o documentário foram realizados entre os dias 28 de Abril à 02 de Maio de 2013, mas o projeto já está em funcionamento desde o final de 2012, com o levantamente prévio de dados, valorização da pesquisa como princípio educativo junto às turmas de Geografia e desenvolvimento do estágio dos estudantes Dieyson da Conceição, Asmavette Demetrio e Marcélia Araújo, além do estudante Alex Cruz que se voluntariou a participar do levantamento dos depoimentos. A equipe de filmagem foi composta por Wallace Pantoja (coordenador do projeto e diretor do documentário), Mateus Moura (assistente de direção e editor), Cleison da Conceição (Cinegrafista e editor), Rubenilson "Guto" Setubal (operador de som) e Jefferson Corrêa (iluminador).

Nosso documentário não tem a pretensão de ser a "representação verdadeira" do contexto sócio-espacial significativo para os professores que contribuem com o projeto, mas pretende expor pontos de vista que, normalmente, não aparecem nos conteúdos oficiais sobre a Transamazônica: a visão dos que vivem este Lugar como seu! Se com isto suscitarmos o debate e a reflexão sobre este espaço, despertando interesse, dúvida e novas pesquisas para os que entrarem em contato com as "representações" veiculadas no documentário, coletivamente construído, já teremos atingido nossos objetivos.





Transamazônica

Belo Monte - A Construção do Deslugar Indígena




Mulheres e crianças em busca de alimento, como peixe.


A Aldeia Poticroo, localizada em Anapu (PA), próxima ao rio Bacajá, afluente do rio Xingu, revela ao nível do cotidiano indígena, os impactos variados do empreedimento de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

A visita realizada pelos estudantes Dieyson da Conceição (Geografia PARFOR-IFPA), Alex Cruz (Geografia PARFOR-IFPA) e Jorkeane Rodrigues (UFPA) revela um processo que precisa ser não apenas problematizado, mas aprofundando - a construção do deslugar a partir de grandes empreendimentos, sem que isso signifique uma desterritorialização.



Peixe e Muqueca, cada vez mais escassos.





A aldeia é constituída por 80 membros, entre jovens e adultos, em um dinâmico processo de transformação recente que impõe uma necessidade urgente de alternativas para conciliar o cotidinao nativo e a modernização forçada.

O rio Bacajá, que serve a aldeia como lazer, transporte e fonte de alimento, está cada vez mais baixo com o a construção da usina no Xingu, antes peixe e muqueca eram parte da alimentação, agora são os industrializados que, logicamente, precisam ser adquiridos a um preço e exige uma capitalização por parte dos membros da aldeia, de modo que as fontes de reprodução da vida no lugar escapam das mãos dos nativos para ser controladas por terceiros, através de trabalho empregado, de programas governamentais-empresariais ou simples abandono do lugar em busca da cidade.

Os membros que permanecem estão se deslocando dentro da terra da aldeia - já demarcada - para terem maior acesso ao rio, evidenciando a íntima relação dos indígenas com o mesmo.



Professor da aldeia - "nossa língua e cultura estão morrendo".


Outro processo relatado pelo professor da aldeia é a aversão a língua Poticroo, por parte dos jovens e crianças, haja vista o aumento do contato com os "de fora" e com os produtos de fora, há uma tendência a negação da cultura enquanto seu contexto de vida.

A CCBM alega que repassou recursos para a prefeitura com finalidades de construção de acesso viário para a aldeia, porém, perde de vista que o rio não é só mera via de deslocamento, é um elemento fundamental para a construção do pertencimento do grupo a este lugar, assim com sua língua e suas formas de reprodução enquanto grupo.







Rio cada vez mais baixo impôs o deslocamento da sede da aldeia.


Aqui notamos um processo de deslugarização, de perda das relações fortes com o lugar sem que para isso haja desterritorialização, ou seja, retirada da coletivo de nativos. Até que ponto apenas a demarcação de terras ou a ajuda financeira com o discurso de "manter o nativo no local" é tão eficiente e humnitária?

O espaço pode revelar relações e pode esconder, cabe a nós tirar da invisibilidade estes processos e exigir seu debate para encamimnhar soluções efetivamente humanas.

Não cabe aqui discutir o acesso da tecnologia como forma de "aculturação" seja lá o que isso signifique, os nativos têm direito ao acesso de técnicas, incluindo aí medicamentos e outras melhorias, o que cabe discutir é a imposição da modernização que produz um deslugar, uma perda de pertencimento ou de reconhecimento do próprio espaço e de si mesmo, sendo incluído de maneira marginal nessa dita sociedade modernizadora.






Transamazônica

Erguendo a Escola com as Próprias Mãos












Reunião de pais e responsáveis anual. Foto: Prof. Ângela

O cotidiano das vicinais é um desafio para o fazer educativo dos professores do campo em classes multisseriadas. Apesar de todas as dificuldades - e para além delas - há uma vontade de produzir, de criar, de instituir a educação como meta e valor. As fragilidades e demandas são enormes, a começar pela formação dos professores, um dos obstáculos que precisamos enfrentar para qualificar teórica e metodologicamente os homens e as mulheres que se defrontam com a realidade crua da Tranzamazônica e, muitas vezes, sem perceberem o valor que possuem enquanto profissionais, trabalham mergulhados em carências.





Prof. Ângela e seus estudantes na escola erguida pela comunidade.




Estudantes do Cururuí em classe multisseriada. Foto: Prof. Ângela




Merenda produzida na cozinha da escola com auxílio das mães.


Dona Ângela, exemplo de educadora que, junto à comunidade e seus estudantes, revela uma vontade persistente e esperançosa de fazer da escola um espaço de construção de futuros possíveis, seu trabalho é uma amostra de como podemos ser agentes de nossa própria história. A escola, erguida por ela, por pais e os próprios estudantes é um lugar de reunião e partilha, de encontro e (re)conhecimento, na vicinal do Cururuí, deixando claro que não é a distância dos centros ou a ausência do poder público que vai impedir jovens e crianças de exercerem seu direito mais básico - a educação!

É, em grande medida, esta a razão de ser deste projeto, nas palavras da própria professora Ângela: "Não sabia que ser geógrafa [ela está na graduação em Geografia pelo PARFOR-IFPA] era tão importante, posso não ser só professora, mas também repórter e investigar as coisas do meu lugar [falando sobre a possibilidade do nosso documentário como motivação para a pesquisa].

Saber-se educadora é também saber-se pesquisadora de seu tempo e de seu espaço, através dessa unidade: educação e pesquisa, é possível conquistar transformações realistas para o próprio lugar, tendo a escola como ponto de partida e ambiente de reflexão e formação.

Nesse sentido, professores como Dona Ângela e tantos outros deixam clara sua mensagem: não estão atrás de pena, migalhas ou privilégios, estão atrás de direitos efetivamente garantidos, mas não realizados de fato no seu lugar e em tantos outros que encontramos cortados pela Transamazônica - é um grito de vozes que não podemos deixar silenciar.

Transamazônica

Vida e Morte nas Vicinais...


Ainda é uma realidade os assassinatos no contexto da Transamazônica. Os motivos são variados e nem sempre em função da disputa pela terra. Desde desavenças familiares e entre amigos, disputa por ganhos na extração da madeira, grilagem de terras, embates entre pequenos produtores, brigas depois de alcoolismo, mas o que salta aos olhos quando estamos entrevistando as pessoas é que são muitas, a imensa maioria invisibilizada pela lei do silêncio que não é apenas local, mas da mídia e até de autoridades que parecem entender que aqui funciona uma outra lógica que não é a da legalidade e proteção aos direitos.

Numa vila distante do centro de Pacajá ou "a rua" como é conhecida aqui,
uma das dezenas de mortes contabilizadas por ano, no período de natal,
revelando o retrato cru de uma realidade que parece entregue a própria
sorte.

Obviamente é preciso contextualizar este fato a partir dos sucessivos processos de ocupação do espaço no entorno da Transamazônica, em várias "ondas" e refluxos migratórios que acabaram por viabilizar a chegada de diversos agentes espaciais que entram em choque direto entre si por interesses variados, soma-se a isto a carência de uma rede técnica e política que sirva às populações do lugar e temos um quadro de violência que parece só se agravar, vida e morte de pessoas "sem nome" e, o que é pior, para quem é negada uma história e um espaço.





Corpo retirado do matagal, onde estava enterrado (Foto: Anônimo, 2012)




Transamazônica

Formas de Circulação na Faixa


Uma das características mais marcantes no que se refere as formas de circulação na Transamazônica é o uso extensivo das motos. Para enfrentar a poeira e, especialmente, a lama nos períodos de chuvas, para subir e descer ladeiras tanto na Faixa quanto nas vicinais, a moto tem se estabelecido como meio de transpor por excelência, em função também do preço mais acessível quanto da versatilidade e baixo custo de manutenção.

Há toda uma rede de relações que se estabele em função do uso das motos, bem como uma fragilidade no controle e fiscalização dos usuários, o que leva a um número maior de acidentes amplamente relatados em Pacajá e no entorno.




A moto no cotidiano das famílias (no caso específico era apenas para registro da imagem). Foto: Wallace Pantoja.






Não é incomum vermos as pessoas circularem sem equipamentos de segurança e em quantidades inpraticáceis no mesmo veículo, três, quatro e até cinco pessoas, famílias inteiras circulando o que é potencialmente perigoso, porém, amplamente aceito e normalizado no cotidiano da população, configurando até um símbolo de status para os jovens.

Transamazônica

Educação do Campo










Professora
Tereza (conhecida como Terezinha), dá aulas na pequena escola na vicinal
"Ladeira da Velha", apesar das dificuldades materiais e técnicas,
existe um empenho claro na educação das crianças e jovens que estudam no modelo
multisseriado - várias séries no mesmo ambiente - característico da área rural
no entorno da Transamazônica.






Professora e pequena produtora Dona Terezinha. Imagem: Wallace Pantoja




Ela deixa claro a importância da educação como forma de transformar a condição de vida dos pequenos produtores a partir do seu próprio lugar, porém, também destaca as imensas dificuldades em desenvolver uma educação de qualidade.





Professora Terezinha, mostrando os cartazes produzidos pelos estudantes. Imagem: Wallace Pantoja




Existe uma íntima relação entre a educação do lugar, a produção
agrícola e o calendário escolar, bem como os eventos, são desenvolvidos
em torno dessa produção, o que já constitui um sinal de mudança, ainda
que tímida, frente ao modelo de educação centrado no urbano, que é uma
educação no campo, mas não do campo.





Espaço escolar rural em classe multisseriada na vicinal "Ladeira da Velha". Imagem: Wallace Pantoja





É preciso aprimorar a formação dos educadores também, no sentido de lidar com a realidade multisseriada não como um fardo, mas como uma oportunidade de pensar uma educação a partir do próprio contexto e valorizando os saberes locais para além dos livros didáticos aonde Pacajá não aparece.

Transamazônica

Ser Geógrafo nas Ladeiras de Pacajá


Breve depoimento da Profª Msc. Flávia Cavalcante, uma das pessoas cuja
trajetória de vida foi cortada pela Transamazônica. Depoimento que
também é um convite ao ofício de ser geógrafo.






Transamazônica

Desigualdade Espacial e Controle da Terra




Vicinal "Ladeira da Velha". Imagem: Wallace Pantoja







Segundo a fala de um dos moradores – que é professor e
dono de pequena propriedade – as melhores terras (nesse caso, já roçadas e
produtivas) ficam próximas ao município de Pacajá e junto da “Faixa”, na medida em que
nos afastamos da sede municipal e adentramos as vicinais, as terras ficam mais
difíceis de trabalhar, pela presença da floresta amazônica, dificuldade da família
em lidar com a terra e fragilidade de infraestrutura e serviços. Há uma lógica
de localização que afirma a desigualdade estrutural.

Transamazônica

Nos caminhos da "Faixa"...


Este projeto integra outro muito maior, Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) da SEDUC-PA, a partir do Programa de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR).

Buscando compreender a realidade da e na Transamazônica é que tomamos o
desafio deste projeto - construir um documentário a partir das falas dos
próprios agentes sociais que vivenciam o cotidiano à beira da BR-230,
mais conhecida como "A Faixa". O conjunto de informações e vivências
aqui reunidas vão compor o roteiro do documentário que pretende dar
visibilidade as pessoas e relações que constituem uma das muitas
realidades amazônicas ainda tão pouco compreendidas. Contamos com a
participação e o apoio de todos que sabem da importância de
problematizar a realidade local.










Este projeto é desenvolvido pelo PARFOR-IFPA, sob a coordenação do Prof. Msc. Wallace Pantoja. Tem como instituições parceiras a SEDUC-PA, FADESP e FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS.